Os enredos e sambas do Rio de Janeiro para 2015: apesar das ideias repetitivas, uma safra acima da média.
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Os enredos e sambas do Rio de Janeiro para 2015: apesar das ideias repetitivas, uma safra acima da média.


Eugênio Araújo
Professor Doutor em História da Arte
Departamento de Artes/UFMA.

                Fazer crítica de samba-enredo não é uma tarefa fácil. Primeiro, concentrado no mesmo produto há duas coisas diferentes: o tema-enredo e sua contraparte musical, o samba-enredo em si. O enredo é a ideia original que dá origem e norteia a produção musical; o samba é o resultado final dos compositores, a transformação em verso e melodia de um texto ou história.

 Um bom samba-enredo deve traduzir o mais fielmente possível a ideia do enredo sem ser literal, deve aludir com propriedade, mas sem cansar o ouvinte com detalhes desnecessários; o enredo pode ser prolixo, mas o samba enredo deve ser conciso, ainda mais num tempo em que esse gênero musical é pouco veiculado e valorizado. Nos anos 1970/80, os sambas caíam na boca do povo ainda em dezembro.

 Hoje, mesmo no dia do desfile, poucos sabem cantar o samba da sua escola. Por isso, ser direto, claro e preciso é quase uma obrigação. Evitar palavras e frases muito rebuscadas, sem perder o encanto poético, elaborar um bom refrão de cabeça (aquele que abre o samba), evitar repetições e clichês já batidos, saber estruturar as duas estrofes intermediárias sem deixar cair o ritmo e a melodia, são desafios que os compositores têm que enfrentar. Fazer um bom samba-enredo é difícil.


 Este ano resolvi fazer uma análise crítica da produção carioca, especialmente direcionada àqueles que ainda curtem o desfile das escolas, que compram o disco e o escutam até o fim, avaliando cada samba. Esta análise vai englobar as duas caraterísticas acima citadas, o tema-enredo e o samba em si. Isso porque são ingredientes interdependentes: um bom tema pode gerar um samba medíocre e vice-versa. O milagre se dá quando um tema ótimo e relevante gera um bom samba. 

Aí está aberta a porta para a vitória. Mas hoje em dia, isso é raro. Vivemos a época dos “sambas médios”, que podem até funcionar na avenida, mas não conquistam o público e não são mais sucessos radiofônicos. Devo dizer ainda que um bom samba deve ser auto-suficiente, dando conta do enredo em seus vários aspectos. Não é preciso ler o prospecto ou pesquisa que o originou para avaliá-lo. Seguindo esta premissa, não consultei qualquer outra fonte a não ser o encarte que acompanha o disco. É o mesmo procedimento do grande público. Se o samba deixa dúvidas sobre o tema e seu desenvolvimento, isso por si só já é um defeito.

 Por outro lado, uma caraterística especial do samba-enredo como música sazonal, ligada diretamente a um ritual, é ir conquistando o público ouvinte pouco a pouco. Assim que o CD é lançado, ao escutá-lo pela primeira vez, quase nada agrada. Só depois de repetidas audições é possível emitir algum juízo crítico. Para escrever este artigo, escutei durante um mês o CD do Grupo Especial carioca, quase diariamente, fui me deixando conquistar: o que vai aqui não é a opinião de um crítico musical, nem sequer a opinião estrita de um especialista em carnaval. Tento sempre me colocar na posição do ouvinte comum, que escuta o samba nas suas formas tradicionais de consumo: no rádio, numa festa, numa mesa de bar, já com algumas cervejas na mente, sem ter à mão nem mesmo o encarte com a letra. Este tipo de ouvinte, apesar de disperso, é muito exigente, pois sendo o consumo rápido e imediato, a música deve conquistá-lo quase imediatamente, a melodia deve ser marcante, ficar martelando e solicitar repetição. 

  Aí está outra dica para o sucesso: um bom samba dá vontade de escutar de novo!E deve ter ao menos um verso forte que seja memorizado na primeira audição, a partir do qual se começa a tentar memorizar o restante da letra. Para análise estritamente musical contei com o auxílio luxuoso da profa. e pianista Ana Neuza Araújo, que dedilhava ao piano as melodias dos sambas enquanto escutávamos o CD, desvendando sua estrutura melódica. Alguns sambas que parecem bem no CD podem não funcionar na avenida e vice-versa. O ingrediente surpresa está sempre ativo. Por isso, nada aqui é definitivo. Vamos aos sambas!

1.       Unidos da Tijuca – “Um conto marcado no tempo: o olhar suíço de Clóvis Bornay”.
O tema parece ser uma mistura de homenagem ao grande carnavalesco e artesão do carnaval Clóvis Bornay (que marcou época com suas incríveis fantasias de destaque na categoria “luxo”) e ao mesmo tempo ao país Suiça. Neste caso o samba padece de desequilíbrio básico, pois a figura de Bornay não é aludida diretamente, não sabemos o porque da associação: Bornay era de origem suíça? Não tenho essa informação, embora seu sobrenome sugira ascendência estrangeira. E se era, porque a letra do samba não alude a isso diretamente e parece dedicada inteiramente ao país europeu? Assim, Bornay não passa de um substantivo próprio no título do samba, que segue o formato padrão mais adotado, de dois refrãos de 4 versos e duas estrofes relativamente curtas. Mesmo esquecendo Bornay, a letra é eficiente, remete a alguns pontos eminentes da cultura suíça, como o Prêmio Nobel e a excelência dos relógios. Mas evita a crítica e não fala da lavagem de dinheiro. Essa é uma caraterística que vem minando a empatia dos sambas-enredos cariocas, essa visão acrítica da realidade. De uns tempos pra cá, os sambas só fala de um “mundo de maravilhas” que não corresponde ao que vivemos. Isso tira muita força do gênero. Na falta de adjetivo mais exato, recupero um, meio em desuso, mas que cabe bem para a situação: são “sambas alienados”, que preferem não ver o lado escuro da vida e do ser humano. Como escola de samba também é teatro e drama, não falar sobre as coisas negativas deixa a manifestação capenga e carente de contraste. É preciso recuperar o caráter conflituoso do samba-enredo, música programática e dramática por definição. Quando há alguma citação de conflito, ele geralmente se dá no âmbito da “História”, quase nunca se refere à contemporaneidade e à vida que levamos hoje. É uma grave falha!
A melodia é bem resolvida, faz uma bela modulação depois do segundo refrão, mantém a cadência e impulsionaa volta para o primeiro refrão: esta é uma fórmula para o bom samba. Feito em si maior, faz uma bela modulação para si menor no início da segunda estrofe, muito eficiente para criar um interesse e desenvolver o restante, preparando para volta ao refrão de cabeça. Mas no final da primeira estrofe a melodia fica repetitiva.Se houvesse mais equilíbrio entre a cidade e o cidadão homenageados, o samba seria quase perfeito.

2.       Salgueiro – “No fundo do quintal, saberes e sabores na Sapucaí”.
O enredo parece falar sobre a cozinha mineira, algo que a gente só descobre depois de ouvir o samba muitas vezes, uma vez que o título não revela isso. A letra deixa a desejar, evocando a comida de modo geral e o estado de “Minas Gerais”, misturandooutras referências, como o Ciclo do Ouro. Acho pouco para um enredo tão específico, apesar de repetitivo. Esse tipo de tema já foi muito realizado nos anos 1980/90, quando geralmente se falava da culinária brasileira, evocando os pratos típicos de cada região. Neste caso, o enredo se concentra apenas na Culinária Mineira. O maior pecado: os grandes ícones da cozinha mineira, o Pão-de-queijo e o Tutu, não são sequer citados, gerando um samba deficiente, que preferiu fazer alusões genéricas à “sabores e saberes”, sem conseguir empatia. Neste caso a opção de “apenas aludir” não vale! Ícones de reconhecida importância devem ser citados nominalmente! Além disso, o samba repete alguns clichês apelando para palavras como “ancestrais”, “ambição”, “divina” e situações como o “encontro das 3 raças”. A letra não faz jus à riqueza e sofisticação da cozinha mineira. A melodia é eficiente, melhor que a letra, faz as modulações de praxe, embora seja muito parecida com todos os outros sambas do Salgueiro, acrescenta pouco a esse prato meio insosso. Arroz com feijão sem tempero. É pouco para uma escola que leva o sal no próprio nome.

3.       Portela: “Imaginário, 450 cajueiros de uma cidade surreal”.
Pelo título nada se consegue desvendar sobre o que a escola vai falar. Pela letra deduzimos que é alguma coisa sobre o Rio de Janeiro, mas são tantas referências genéricas que fica difícil saber sobre o que exatamente versa este tema. Aí vem alguém e diz que é sobre os 450 anos da cidade do Rio. Ah, sim! Mas, cajueiros? Tirando essa referência inusitada, a letra é uma repetição de lugares comuns e clichês, já batidos e rebatidos numa centena de sambas anteriores: “Garota de Ipanema, princesinha do mar, paraíso divinal, despertou cobiça, Redentor...” e por aí vai. Parece o típico samba-enredo para turista. Sobre os grandes problemas do Rio, nem um verso. É o típico “samba alienado”. Nessa hora dá saudade de João 30 e Fernando Pinto, que sabiam falar de tudo com precisão e bom humor, sem deixar de dar os toques necessários. Com seu samba “surreal”, a Portela consegue apenas falsear o Rio, que precisa muito de artistas que o discutam, poética, mas seriamente, formatando interpretações inéditas, quem sabe apontando possíveis soluções. Ignorando a realidade, a Portela deixa de dar uma contribuição importante. Por outro lado, num samba sem modulação identificável, a melodia apenas repete as de alguns outros sambas recentes da escola. Dá pra saber que é um samba da Portela, mas poderia ser de qualquer ano entre 2000 e 2015. Presente de aniversário falso e pouco inspirado.

4.       União da Ilha – Beleza Pura?
O título é óbvio: estamos questionando a beleza. Os carnavalescos deveriam voltar a exercitar este tipo de título curto e claro. A interrogação aqui faz toda diferença, alertando o ouvinte e leitor que o samba vai pelos caminhos da dúvida e não das certezas. A estrutura segue a mesmo formato padrão já aludido, dois refrãos (segundo de apenas 3 versos), entremeados com duas estrofes. Se o refrão de cabeça é meio fraco, é plenamente compensado pelo segundo, verdadeirajóia rara, curto, bem humorado, fácil de aprender, certamente o melhor refrão do ano (“Lá vem ela toda prosa/ Gostosa!/ Fiu, fiu!...). Além disso, o samba conta com um “falso refrão” no meio da primeira estrofe, que o deixa mais animado. Sem se deter nos ícones históricos mais fáceis da beleza (mitologia grega, afro, etc.), a letra vai da beleza natural àquela  artificialmente construída, passeando por referências mais atuais como a Moda, a Malhação, as Selfies, e alude à “beleza interior”, que não se perde com o tempo, num dos versos mais inspirados do ano: “O coração me diz que a eterna juventude é ser feliz!”, poesia acima da média incrustrada num samba praticamente perfeito, que tem tudo pra funcionar bem no desfile. Embora não seja um tema exatamente “politizado”, e sim filosófico, o espaço está aberto para crítica às regras de comportamento, e dos padrões de beleza, enfatizando um relativismo antropológico: “Cada um acha um jeito de se enfeitar”. Lidando com ideias tão abstratas, só aparentemente fácil (adicção do puxador às vezes deixa a desejar, embrulhando as palavras), este samba da Ilha quase relembra os grandes da década de 1980. Ainda que com andamento um tanto aligeirado, talvez seja o melhordo ano, consegue traduzir seu tema de maneira atual, sem ser repetitivo e cansativo. Aqui, os clichês são usados ironicamente, a favor da crítica (“Mamãe tô forte e tenho sorte/Meu charme é passaporte para ser super-star... “tiro foto de mim mesmo/Eu só quero aparecer...”) e aí sim, funcionam bem. Melodicamente é um dos sambas mais diferenciados, feito em dó sustenido maior, explorando os tons alterados,apesar de fazer as modulações de praxe,sua sonoridaderesultasingular perante os outros. Beleza Pura!

5.       Imperatriz – “Axé Nkenda! Um ritual de liberdade “e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz”.
Mais um título quilométrico que não ajuda muito. O que isto quer dizer afinal? Mas dúvida é logo desfeita no refrão de cabeça, e com a referência à Nelson Mandela ficamos sabendo que se trata de um libelo a favor a igualdade étnica, sobre a luta dos negros pelos direitos humanos. Tema repetitivo que só vale a pena se acrescentar algo de novo a tudo que sem sendo dito ao longo de 50 anos de desfiles, a partir de Xica da Silva no Salgueiro em 1963. Enredos sobre negritude são uma faca de dois gumes, há sempre o risco de cair do lugar comum: a situação dos negros mudou neste ínterim, embora haja questões históricas ainda pertinentes, não é possível mais tratar a questão da mesma forma. O samba não consegue fugir dos clichês, aludindo à“Mãe África, rituais, magia, mistérios, violência do invasor...”, associando às referências sobre transposição da cultura afro para o Brasil com culinária baiana e folclore nordestino. Aqui se perde o teor político do enredo, que fica parecendo catálogo turístico. Sem comentar diretamente a situação difícil do negro brasileiro atualmente, o samba tende mais uma vez para alienação. Quanto à estrutura, o samba faz a difícil opção por apenas um refrão, ficando a letra disposta em 4 estrofes que vão diminuindo à medida que se aproximam do refrão de cabeça. Sambas assim são muito raros, porque a força da música de massa repousa na repetição dos refrãos fáceis. Dispensando um deles, o samba parece longo e perde o embalo, embora seja bem cadenciado.

6.       Grande Rio – “A Grande Rio é do Baralho”
Dá pra saber que é algo sobre o jogo. A letra confirma que se trata de enredo exclusivo sobre as várias formas de jogo de cartas, o que por si só já é bem amplo. O carnavalesco acerta em concentrar apenas no baralho, sabendo que dá pano pras mangas, em vez de falar de vários tipos de jogos, enredos já muito batidos. O samba é um dos menores e volta a reafirmar a forma padrão: dois refrãos e duas estrofes (as mais curtas do ano). A letra é eficiente e a primeira estrofe é talvez a mais bem construída do ano, com paradinhas e melodia que prepara para o segundo refrão. Apesar da bela modulação, que até parece uma mudança tonal, há uma repetição melódica por 4 versos que compromete bastante. Essas repetições vão num crescendo que preparam bem a volta para o refrão de cabeça. Mas é um samba com uma melodia típica de pagode. Talvez a questão mais relevante seja temática: qual a relevância de falar do jogo de baralho hoje? Um bom samba-enredo deve, além de bem feito, ser atual, falar das coisas pertinentes ao nosso tempo, falar de nós, dos nossos anseios. Jogo de baralho na situação em vivemos hoje parece ser pouco relevante. Mais uma vez dá saudades de João.

7.       Beija-Flor – “Um Griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha da nossa felicidade”.
Ufa! Parece título de tese de doutorado misturado com música de Geraldo Vandré! Mais um enredo afro da Beija-flor. Não há como não achar repetitivo, esse vem sendo o mote da escola há quase 20 anos. Como criar variedade nisso? Inicialmente a sonoridade é basicamente a mesma de vários outros sambas da escola, parece que estamos escutando o mesmo samba de anos passados. Há certo vício melódico na ala de compositores da Beija-flor que precisa ser urgentemente superado – aliás esse é um problema de várias escolas cariocas. Além do mais, a melodia tende sempre pra baixo, ficando o samba arrastado e quase triste. Quanto ao tema, fica claro que se trata de um enredo específico sobre a Guiné, mas sem deixar de falar da “África Genérica”, e já sabemos o que vamos ver: girafas, antílopes, elefantes, leões, aborígenes, tribos primitivas, etc. Isso tudo é tão“dejá vu”, e pra piorar, os clichês se repetem durante o samba inteiro, como “negro canta liberdade, o invasor singrou mar em busca de riquezas, a chama da igualdade, mãos calejadas...”, e por aí vai. A Beija-flor pode fazer muito melhor que isso! Apesar de seguir a forma padrão, o samba é longo, com as duas maiores estrofes do ano. Assim, fica difícil aprender! Apesar de continuar realizando desfiles visualmente impressionantes, a escola há muito tempo não faz um samba marcante.

8.       Mangueira – “Agora chegou a vez cantar: mulher de Mangueira, mulher brasileira em primeiro lugar”.
Ok, está claro que o tema é a mulher brasileira. O título mescla a música de Benito de Paula (grande sucesso dos anos 1970) com a “mulher de Mangueira”, associando “ícones” da feminilidade locais e nacionais. A ideia é boa e atual (as questões de gênero estão em voga), mas a forma de realizá-lo deixa muito a desejar. Assim como a Portela, a Mangueira doura a pílula, criando uma mulher surreal para habitar um Brasil onírico, onde ela é endeusada, embelezada, cultuada e divinizada. Mas não é isso que vemos no nosso cotidiano!A mulher brasileira enfrenta uma variedade de problemas totalmente ignorados pelo samba verde-rosa (agressão doméstica é um dos mais graves). Mas, segundo o samba, ela vive num paradisíaco “mar de rosas”. Assim não dá!Mas aí dirá o coro dos alienistas: “- Mas no carnaval não devemos falar de problemas, de coisas tristes!, carnaval é festa é alegria!”Ok! Mas temas tristes não geram obrigatoriamente sambas tristes. Uma ideia séria e crítica pode ser tratada de forma cômica e satírica. Mais uma vez João 30 faz falta! O carnaval sambista carioca precisa voltar a falar do mundo tal qual ele é, e não desse mundo cor-de-rosa que o financiamento oficial e estatal quer ver desfilando na avenida,com enredos pra “inglês ver”. O Brasil passa na tevê, todos sabem que não é o Paraíso, o Rio não é a cidade maravilhosa e nossas mulheres são vilipendiadas das mais variadas formas. Embora, musicalmente falando, o samba seja eficiente, sua falsidade supera qualquer beleza melódica. Tenho certeza de que nossas mulheres não se reconhecem nele.E não o cantarão.

9.       Mocidade – “Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria se só te restasse um dia?”.
Finalmente uma fantasia pura, uma elocubração. É o que nos oferece o enredo da Mocidade, baseado numa música de Paulinho Mosca. Isso é pós-modernidade em arte: uma obra gerando outra obra. Émeta-linguagem! Capitaneada agora por Paulo barros, herdeiro legítimo de João 30, a única certeza que temos é de não saber ao certo o que vamos ver. Só isso já é bom! Eis aqui, uma ideia triste (o fim do mundo) tratada de forma absolutamente cômica, que gerou um samba pra cima, alegre e muito bem feito. Estruturalmente comportado, seguindo o padrão,o que diferencia este samba dos outros é o uso do imperativo (“Invade, viva, solte, liberte, se joga na felicidade!...”) e da primeira pessoa (EU) na letra do samba, cheia de interrogações e possibilidades de ação. A maioria dos sambas fala da história, usando o pretérito, a voz do tempo passado. O samba da Mocidade atualiza a história, a lenda do “fim do mundo”(“...hoje é o dia, eu já tô louco, sou Vintém, sou padre Miguel, vou curtindo a vida...”).Esse recurso muda o caráter da poesia, causando imediata empatia com quem canta e ouve. Embora tal estratégia seja muito eficiente, poucos a usam hoje. As referências da letra são ao mesmo tempo clássicas (o Juízo Final), românticas (morrer de amor) e subversivas (andar pelado!), tendo o carnavalesco ampla liberdade de criação. Melodicamente correto, sem muita novidade, o samba se aproximados “grandes” da Mocidade dos anos 1990, e esta é sem dúvida a melhor produção da escola nos últimos 15 anos.

10.   Vila Isabel – “O maestro brasileiro esta na terra de Noel”.
O enredo é uma homenagem a dois músicos: O maestro Isaac Karabithevske o sambista Martinho da Vila.  (“Isaac e Martinho dão o tom”). É a justaposição mais clara entre a cultura de elite e a cultura popular, música clássica e samba, uma tradição que as escolas de samba carioca institucionalizaram no carnaval brasileiro. O enredo, sem ser inovador chega a bom termo, embora não seja de fácil entendimento, cheio de referências à peças musicais do repertório clássico e de óperas. Aqui não há clichês nem repetições vazias.O samba tem traços da produção dos grandes mestres, com nítida influencia de Martinho da Vila.Não poderia ser diferente, tratando-se de um samba que vai falar de música erudita. A estrutura é diferenciada:embora possuindo dois refrãos mais fortes, as duas estrofes são desiguais, sendo a primeira bem mais longa. Antes de voltar ao refrão de cabeça, há um terceiro “mini-refrão”, que prepara e anima a volta ao refrão de cabeça. A primeira estrofe é um primor de variedade melódica e rítmica. A melodia é sem dúvida uma das mais diferenciadas e bem construídas do ano, e o samba concorre ao título de “melhor”, junto com a Ilha e Mocidade. Embora não seja um samba de empatia imediata, e bem mais difícil de cantar, devido a toda essa variação. É um “samba erudito” na acepção do termo, e por isso deve pagar preço de ser pouco tocado. Esse tipo de produção, embora sempre de exceção, se faz necessária dentro do contexto geral, como exemplo dissonante, como mostra de alternativas para a monotonia. Ao escutá-lo, outros compositores podem avaliar comparativamente a própria produção, incorporar alguns de seus traços, sofisticando a safra geral. A Vila Isabel vem conseguindo manter nível relativamente alto na sua produção sambista, sempre com uma cadência mais lenta, é responsável por alguns dos sambas mais bonitos dos últimos anos, fase pouco promissora da produção sambista do carnaval carioca, marcada por sambas deletáveis e “esquecíveis”.Na Vila, mesmo sem ser sucesso radiofônico, o samba-enredo foge ao lugar comum e merece ser escutado com atenção.

11.   São Clemente – “A incrível história do homem que só tinha medo da MatintaPerera, da Tocandira e da Onça Pé-de-boi”.
O título não ajuda saber que o enredo é sobre um dos maiores nomes do carnaval carioca, Fernando Pamplona. Mas faz jus à criadora dessa moda prolixa, a carnavalesca Rosa Magalhães. Podemos esperar uma pesquisa esmerada e a reprodução de alguns dos “momentos ícones” dos modernos desfiles das escolas de samba cariocas. Fernando Pamplona foi professor de João 30 e também da própria Rosa, na EBA/UFRJ. Foi o primeiro “intelectual no samba”, praticamente falando. Homenagem muito justa, tema pertinente, com um samba correto que chega a reproduzir alguns trechos dos grandes sambas do Salgueiro da década de 1960, quando Pamplona assumiu o posto de carnavalesco, instaurando a tradição de falar da negritude em tom de elogio e não de lamentação, como era feito até então. Ele fez seguidamente enredos em homenagem a Xica da Silva, Xico Rei e Zumbi dos Palmares. Essa tradição de falar da negritude positivamente foi continuada por João 30 na Beija-flor dos anos 1980. O samba consegue ser correto, seguindo a estrutura clássica, mas sem surpreender, a melodia fica repetitiva em muitos versos. Talvez um samba versando sobre tal tema (o próprio carnaval em uma época específica) merecesse dos compositores um trabalho de pesquisa mais rigoroso, procurando traduzir melhor o “estilo musical da época”. Trabalho nada fácil, mas que daria resultado mais sofisticado, fazendo jus ao talento do homenageado.

12.   Viradouro – “Nas veias do Brasil, é a Viradouro em dia de graça!”
Reedição de um samba clássico da Vila Isabel dos anos 1980. Só sei disso porque lembrei da sonoridade da música, que foi um dos sucessos da época. No encarte nada consta, deixando o ouvinte pensar que se trata de uma produção atual. A opção de fazer reedições de grandes sambas da década de 1970/80 não tem funcionado muito bem. Nenhuma escola que o fez, galgou o campeonato, ao contrário dos sambas originais, muitos deles campeões em sua época. É preciso dizer o que isso parece querer indicar: a falta de grandes sucessos do gênero samba-enredo nos últimos anos fez nascer a ideia de reeditar sucessos antigos; mas no Rio, a competição entre sambistas é acirrada, ganhar o concurso de samba-enredo pode mudar a vida dos compositores, tanto econômica quanto socialmente falando. Quando se resolve ressuscitar sambas antigos, estamos reconhecendo certa falta de excelência na produção atual. Mas o que pode agradar ao grande público, (ávido por reviver algo de bom, com seu saudosismo tão em voga), não agrada nem um pouco aos compositores de hoje. Escolher reeditar um samba é eliminar o concurso anual do novo samba, o que deixa sem opção de trabalho e reconhecimento os novos compositores, desmobiliza a quadra da escola no período que seria de competição, afasta possíveis investidores, terminando por causar certa paralisia não só musical, como social na escola. Assim, para uma escola que está voltando ao Grupo Especial, podemos dizer que foi uma escolha ruim, embora o samba seja bom. Ele serve para demonstrar as principais diferenças entre os samba de hoje e de ontem. É a menor letra de todo CD, seguindo a estrutura clássica de dois refrãos e duas estrofes, sendo a segunda ligeiramente maior. Tudo nele é conciso, claro, fácil de aprender. Essa é agrande lição dos “grandes sambas” da década de 1980, que os compositores de hoje devem aprender: clareza e concisão.

Àguisa de conclusão: não dá pra entender como encarte do CD das escolas de samba do Grupo Especial carioca seja tão mal elaborado. As letras são tão minúsculas que mesmo quem quer aprender tem dificuldades. A diagramação e o planejamento colorístico são muito mal feitos, prejudicando ou quase impossibilitando a leitura. Há letras brancas sobre o fundo amarelo! - que não dá nenhum contraste. Numa época em que os sambas tocam pouco no rádio e quase ninguém consegue aprender as letras, um encarte mais bem cuidado, com tipos maiores e cores mais confortáveis para leitura (mesmo que não sejam as cores da escola) poderia ter algum efeito positivo. Não se pode admitir que a LIESA e os cariocas não saibam fazer isso.


 Os enredos e sambas de São Paulo para 2015: ideias repetitivas e alienação marcam uma safra abaixo da média.

1.Mocidade Alegre: “Nos palcos da vida, uma vida no palco... Marília!
2. Rosas de Ouro: “Depois da tempestade, o encanto”.
3. Águia de Ouro: “120 anos do tratado da amizade Brazil e Japão”.
4. Tucuruvi: “Entre confetes e serpentinas, Tucuruvi relembra as marchinhas do meu, do seu , do nosso carnaval”.
5. Dragões da Real: “Acredite se puder”
6. Tatuapé: “Ouro, símbolo da riqueza e ambição”
7.Tom Maior: “Adrenalina”
8. Império da Casa verde: “Sonhadores do mundo inteiro: uni-vos!”
9. Vai-Vai: ““Simplesmente Elis: a fábula de uma voz na transversal do tempo”.
10. Gaviões da Fiel: “No jogo enigmático das cartas, desvendem os mistérios e façam suas apostas pois a sorte está lançada”.
11. X-9 Paulistana: “Sambando na chuva, num pé-d’água ou na garoa, sou a X-9 Paulistana”.
12. Nene de Vila Matilde: “Moçambique, a lendária terra do baobá sagrado”
13. Vila-Maria: “Só os diamantes são eternos na química divina”.
14. Mancha Verde: “Quando surge o alviverde imponente: 100 anos de lutas e glórias”.





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