RETRATO DO ARTISTA ROBERTO LUNA
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RETRATO DO ARTISTA ROBERTO LUNA


"Eu to duro, porque bebi tudo e amei demais" diz Roberto Luna, um dos cantores de maior sucesso no país nas décadas de 1950 e 1960

O velhinho miúdo de cabelos brancos circula entre mesas soltando seu vozeirão ainda potente aos 85 anos. Se percebe um espectador cantarolando a canção, apressa-se em dividir o microfone com ele.

Encontra algum antigo conhecido, logo anunciado como "grande amigo", "pessoa especial". Pode também ser alguém que acabou de conhecer. Vai receber o mesmo tratamento do irremediável galanteador, entre sorrisos, abraços e beijinhos no rosto. É sempre assim.


O artista se chama Roberto Luna. Nome pouco conhecido pelas novas gerações, mas com público fiel desde o auge do sucesso, nas décadas de 1950 e 1960. Sua carreira soma mais de 60 LPs gravados, participação no clássico filme do cinema marginal "O Bandido da Luz Vermelha" (1968), do cineasta Rogério Sganzerla, e convivência com artistas como o cantor Nélson Gonçalves (1919-1998) e a apresentadora Hebe Camargo (1929-2012).

"Todo mundo e tudo que foi importante na música eu estive ou perto ou chegando perto", diz ele ao repórter Joelmir Tavares em seu apartamento no Palacete dos Artistas, quase na esquina da Ipiranga com a São João, no centro. O cantor de boleros e tangos e sua mulher, Magali, 59, moram desde dezembro no conjunto habitacional que a Prefeitura de São Paulo mantém para artistas idosos.

Do passado de glórias, restam recordações guardadas na memória ainda afiada. "Veio muito cedo e muito rápido a minha ascensão", afirma ele, que ficou famoso com a música "Molambo" (dos versos iniciais "Eu sei que vocês vão dizer/ Que é tudo mentira/ Que não pode ser"), lançada nos anos 1950.

"Tinha dia que eu fazia três shows em circo. E quando chovia era um inferno", lembra Luna, ao sentar-se no sofá da sala. Observa o cachorro de estimação que passeia pelo seu colo e constata: "Acho que o Thor [um lhasa apso branco de seis anos] tá ficando velhinho, como eu".

Mas a vida ainda pulsa para o paraibano nascido Valdemar Farias, que não gosta de ser chamado de "senhor". Ele sai de casa para shows esporádicos, como o que fizera semanas antes no Ed Carnes, restaurante no Cambuci (zona sul) que pertence a Ed Carlos, ídolo da Jovem Guarda nos anos 1960.

Até o fim do ano passado, Luna batia ponto todas as quintas-feiras em um bar e pizzaria de Santana (zona norte), o Quintal Brazil. Agora, diz que "talvez uma vez por mês" vai voltar ao palco da casa, onde se apresentou por oito anos seguidos, recebendo como pagamento o couvert pago pelos clientes.

Convites para shows ajudam a complementar a renda de cerca de um salário mínimo. Sente-se meio magoado com a aposentadoria por idade, "fajuta, que mal dá para comprar" os 16 remédios que toma por dia.

"Não por causa dinheiro, mas pela falta de respeito a alguém que por mais de 60 anos trabalhou para a cultura. Tenho uma história que está aí para todo mundo ver", diz, com sua fala pausada e entrecortada por risadinhas, sem tom de ressentimento. "Deus é muito bom para mim. Eu toda hora agradeço pelas coisas que ele me dá."

Diz que ficou difícil provar seu histórico trabalhista porque perdeu documentos em uma enchente que atingiu sua casa em Taboão da Serra (na Grande SP) em 1990. A água levou também quatro dos cinco troféus Roquette Pinto --um dos principais prêmios do rádio no século passado-- recebidos por Luna. Carregou ainda fotos e reportagens sobre ele em jornais da Argentina, de Portugal, da Espanha.

Em um dos discos seus que ele tira da estante para mostrar, a fama aparece em destaque no encarte. "Seu nome ganhou fronteiras", diz o texto na embalagem de uma coletânea da gravadora RGE, da qual Luna era "um dos esteios" aos "29 anos de idade, cheio de vida e de sonhos".

Astro do rádio e pioneiro da televisão, onde chegou a ter programas, ele também deu uma mão a artistas iniciantes. Tim Maia (1942-1998), recém-chegado a São Paulo nos anos 1960 e sem um tostão no bolso, foi autorizado por Luna a fazer refeições com os funcionários da boate na rua Luís Coelho da qual era dono, a Molambo.

A história aparece na biografia de Tim, de autoria de Nelson Motta. O "apetite devastador" do então desconhecido músico chegava a dar prejuízo. Mas Luna mantinha o gesto caridoso. E deixava o novato rechonchudo se apresentar no local.
"Na primeira vez que ele [Tim] cantou, quase ninguém gostou", lembra o veterano, descrito no livro de 2007 como "cantor de boleros e biriteiro, mulherengo e sentimental". Dá uma gargalhada ao ouvir os adjetivos: "Ele [Motta] não errou não...".

Da trajetória de Luna faz parte também o episódio em que quase tomou um tiro de Nélson Gonçalves por ter se envolvido com uma namorada dele. "Um pouco é lenda também", diz o cantor, confirmando a história.

E emenda, sem perder a chance de exaltar qualidades de alguém: "O Nélson foi um dos melhores amigos que tive, uma pessoa muito querida, um homem maravilhoso, um ser humano de tamanho fabuloso. A grandeza de espírito dele era incalculável".

Do alto de seu 1,61 m, o cantor que gravou compositores como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues, acredita que "piorou muito a qualidade da música e dos cantores no Brasil".

"A música popular brasileira empobreceu demais. Mas não tenho o direito de malhar quem quer que seja", afirma, com sua diplomacia. "Só não aceito o sertanejo ser o representante da música popular brasileira."

Reconhece que a transformação é natural e que artistas jovens precisam ter seu espaço. "Eu também tive o meu, lá atrás. Uns chegam, outros saem de cena. Para mim, tudo deu certinho, de acordo com a minha idade."

E formula espontaneamente um balanço: "Tive uma carreira muito bonita, gratificante. Ah, mas dizem: 'Cê tá duro'. Eu tô duro porque bebi tudo e amei demais. Sou um cara feliz. Não sou aquele cara que... 'Ah, eu podia estar assim, eu podia estar assado'. Eu fiz tudo que eu tinha que fazer

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