Arte: fim ou recomeço?

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Arte: fim ou recomeço?

Ferreira Gullar

Ninguém se torna pintor, compositor ou romancista porque decidiu ser. É preciso ter capacidade

Algumas pessoas, com razão, me veem como um inimigo da arte contemporânea. Digo que é com razão porque, na maioria das vezes em que escrevi sobre esse tema, foi para acentuar o que há de mais negativo em tais manifestações.

Devo admitir, porém, que, dada a ausência de normas e limites nesse tipo de expressão, todo e qualquer meio ou modo pode ser utilizado para que o autor se expresse, o que torna praticamente impossível a apreciação crítica do que ele faça. Não obstante, em alguns poucos casos, reconheci o valor da inventividade do artista.

Uma coisa, porém, é certa: não me considero dono da verdade e, por isso mesmo, estou permanentemente questionando o que eu próprio afirmo. E não poderia ser de outro modo, uma vez que o percurso que fiz no campo artístico, seja como autor, seja como crítico, caracterizou-se por buscar novos modos de expressão.

Certamente, devido mesmo ao meu espírito questionador, questionava tanto o que eu fazia então quanto o que faziam meus companheiros, que eram Lygia Clark, Hélio Oiticica, Amilcar de Castro, Franz Weissmann, Aluísio Carvão, entre outros.

Mas disso não resultou a negação das experiências que realizávamos. No meu caso, constatei a certa altura o esgotamento do rumo que tomara e busquei outro. De fato, vi que transformara o poema em um objeto manuseável com uma única palavra, ou seja, o instrumento fundamental da poesia perdera a importância e o poema se tornara uma expressão plástico-pictórica.

Acho que tais realizações têm seu valor como criação poética, mas, se continuasse naquela direção, não teria escrito os poemas que escrevi mais tarde.

Mudança equivalente ocorreu com os pintores do grupo, particularmente com Lygia e Oiticica, que desintegraram o quadro e tudo o mais que caracteriza a pintura. No caso deles, a participação do espectador na obra conduziu à destruição desta.

Os "penetráveis" de Lygia tornaram-se experiências meramente táteis, consistindo na penetração da pessoa em um tubo ou vulva. Essas experimentações foram, de certo modo, uma antecipação do que mais tarde se chamaria de "arte contemporânea". Lygia mesma dizia: "o que faço já não é arte".

Essa exacerbação da expressão, tanto dos neoconcretos quanto dos artistas ditos contemporâneos, resulta de fato no fim do que se chama de arte.

E como já se disse aqui, esse processo começa com o cubismo, ao romper com a linguagem secular da pintura e revelar que toda e qualquer forma tem expressão. Essa descoberta abriu caminho para as experimentações artísticas mais inesperadas, com a utilização de todo e qualquer material. Daí ao urinol de Duchamp foi apenas um passo.

Inevitavelmente, a abolição de toda e qualquer norma e limites para o fazer artístico tornou possível toda e qualquer forma de expressão, desde desnudar-se no museu até matar um cão numa galeria de arte. Ora, se não há qualquer limite para a expressão, como afirmar que isto é arte e aquilo não é?

Veja bem, ninguém se torna compositor ou romancista ou pintor simplesmente porque decidiu ser. É preciso ter em si determinadas qualidades e capacidade que distingue Noel Rosa de um compositor medíocre, que distingue Alfredo Volpi de um pintor medíocre. Logo, o que eles produziram é arte e a do outro não é. Mas, quando não há normas nem limites, tampouco haverá a avaliação objetiva do que foi feito.

É certo, porém, que, mesmo quando se trata de uma obra de arte, não se pode afirmar ser possível objetivamente demonstrar que é mesmo arte. Noutras palavras, antes do juízo crítico é o impacto da obra, sua beleza, sua expressividade que a afirmam como arte de fato.

Isso também acontece com a arte contemporânea. Não é porque o cara não usa pincel e tela que o que ele faz não pode ser arte. Pode, sim.

Um ponto a ser considerado --que pede nossa reflexão-- é o fato de que, no mundo de hoje, com tantas inovações tecnológicas, a pintura, por sua natureza artesanal, não pode expressar plenamente esta nova realidade. Ela continua a ser veículo de um universo poético que só existe nela, mas que não supre as necessidades de agora.

A arte contemporânea talvez seja a transição para uma nova forma de arte que esse novo mundo está a exigir.

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