Livro percorre vida de Clementina de Jesus, morta há 30 anos
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Livro percorre vida de Clementina de Jesus, morta há 30 anos

Reprodução/Internet
Relação de Clementina de Jesus com o samba se estreitou na adolescência

Folha de São Paulo

Há 30 anos, o Brasil perdia o "canto negro e cru", a "voz possante e o talento selvagemente espontâneo" de Clementina de Jesus. E foram necessárias essas três décadas para que a ex-empregada doméstica revelada tardiamente como artista ganhasse sua primeira biografia de fôlego.


A recém-lançada "Quelé, a Voz da Cor" percorre os 86 anos de sua protagonista, mas chama a atenção principalmente por iluminar a obscura vida de Clementina antes de sua estreia como cantora profissional.

"Foram mais de 60 anos sem uma única menção em jornais e revistas, que são normalmente o ponto de partida de todo o biógrafo", diz Janaína Marquesini, 35, uma das autoras do livro.

"Para não depender deles, variamos muito nosso trabalho, indo atrás de depoimentos gravados no MIS (Museu da Imagem e do Som) e na Funarte, além de entrevistas e de uma bibliografia enorme", diz ela, por e-mail.

A obra, assinada também por Felipe Castro, 26, Luana Costa, 27, e Raquel Munhoz, 26, deriva do trabalho de conclusão do curso de jornalismo do quarteto na Universidade Metodista de São Paulo.

Assim como o de boa parte das gerações mais jovens, o conhecimento que tinham da obra de Quelé –apelido pelo qual a cantora ficou conhecida– era limitado.
"Já tínhamos ouvido 'P.C.J. (Partido Clementina de Jesus)' e 'Marinheiro Só', que são as gravações mais famosas. E Janaína conhecia 'O Canto dos Escravos' [disco de 1982, com Clementina, Geraldo Filme e Tia Doca]. Mas, fora isso, não sabíamos quase nada a respeito", diz Raquel.

CORREÇÃO HISTÓRICA

Quelé, A Voz Da Cor: Biografia De Clementina De Jesus
Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa
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Os seis anos de pesquisa, no entanto, os tornaram especialistas a ponto de corrigirem um equívoco histórico: a data de nascimento da partideira, cuja certidão de batismo aponta ser 7 de fevereiro de 1901, em Valença (RJ).
"No cartório da cidade não foi localizada nenhuma certidão de nascimento dela. Nos depoimentos e entrevistas, ela citou 1902 e 1903 como anos em que nasceu. Na certidão de casamento consta 1907", diz Raquel.

"Fazendo todas as conexões com os acontecimentos da vida dela e entrecruzando depoimentos, informações e outras efemérides, concluímos que ela não poderia ter nascido em 1907. E 1902 e 1903 descartamos pela falta de evidências."

O livro também mostra que, apesar de a carreira formal da cantora ter começado apenas em 1964, após impulso do poeta e produtor cultural Hermínio Bello de Carvalho, ela já era conhecida nas rodas de samba e de jongo, tendo convivido com ícones como Tia Ciata, Noel Rosa, Ataulfo Alves e Cartola.

"Ela era ativa no mundo do Carnaval nos anos 1920, 1930, 1940, ora sendo diretora da escola Unidos do Riachuelo, ora participando de alguns momentos nos primeiros anos da Portela, ora se transformando em figura assídua da Mangueira", diz Felipe.

O livro é apenas o primeiro dos projetos em homenagem a Clementina que devem ser lançados neste ano.

Para outubro está prevista a estreia de um novo documentário sobre a filha de escravos libertos que foi, na definição do antropólogo Darcy Ribeiro, "a voz dos milhões de negros desfeitos no fazimento do Brasil".

Ainda sem título oficial –deve receber o nome da homenageada–, o longa da produtora carioca Dona Rosa Filmes está em pré-produção e será dirigido por Ana Rieper (de "Vou Rifar Meu Coração").

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Lembra da cantora Clementina de Jesus? Livro resgata trajetória da cantora

História e trajetória de uma das vozes mais poderosas do Brasil são revisitadas em livro. Lançamento ocorre no ano em que se completam 30 anos da morte da cantor.

Correio Braziliense.-  Adriana Izel

Voz rouca, timbre forte e uma ancestralidade africana marcante. Assim era Clementina de Jesus, cantora que se revelou para o Brasil tardiamente, mas que as escolas de samba do Rio de Janeiro e seus frequentadores tiveram a oportunidade de conhecer anos antes de ela se tornar artista, em 1964, cantando nos barracões. Naquele ano, auxiliada pelo compositor, poeta e produtor Hermínio Bello de Carvalho, a artista, que fora empregada doméstica durante muitos anos, seguiu carreira artística estreando no show O menestrel.

Em julho de 2017, serão 30 anos sem a presença de Clementina de Jesus, que ficou consagrada no samba por cantar partidos-altos e, principalmente, por disseminar os cantos africanos na música brasileira. Coincidentemente é neste ano que a artista ganha uma das biografias mais completas. A obra é Quelé, a voz da cor — Biografia de Clementina de Jesus, de autoria do quarteto Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz.

O material destrincha a vida pouco conhecida da artista, desde a infância pobre em Valença, no interior do Rio de Janeiro, até o início da carreira artística tardia, aos 64 anos na capital fluminense. 

A obra também faz uma homenagem à Clementina, destacando a importância da artista na disseminação da cultura dos escravos brasileiros de Minas Gerais, sendo uma espécie de “mulúduri”, uma herdeira da cultura africana oral. “A importância de Clementina abrange muito mais do que o samba. Ela tinha uma memória muito vívida de cultura popular de cantos. A memória dela era um caldeirão.

 Lembrava de jongos e modas que aprendeu com a mãe e o pai. Ela representa uma riqueza enorme, que teria morrido com ela se não tivesse se tornado artista”, analisa Janaína Marquesini, uma das autoras do livro.
A ideia de escrever Quelé, a voz da cor veio quando os autores ainda estavam na universidade. Com a intenção de tratar de um tema dentro da cultura musical brasileira, o nome de Clementina de Jesus apareceu inspirado pelo último álbum de Quelé, O canto dos escravos (1982), em parceria com Geraldo Filme e Tia Doca. 


Pesquisa

Mas, durante a faculdade, o quarteto teve dificuldade de encontrar as informações necessárias sobre a vida da cantora e optou por discorrer apenas sobre a obra de Clementina e seu legado na música. Com a pesquisa entregue, Felipe, Janaína, Luana e Raquel decidiram ir mais fundo. “Prosseguimos com a pesquisa do livro. Era a hora de ir atrás da infância dela. Tinha um grande abismo entre 1901, ano de nascimento, até 1964, quando ela se tornou famosa. Mas fomos vasculhando jornais da época e documentos que encontramos em Valença, cidade em que ela nasceu, no interior do Rio de Janeiro”, lembra Luana Costa.

Mulher do samba

De origem humilde, Clementina de Jesus nasceu em 7 de fevereiro de 1901, no mês do carnaval, festa que depois se mostraria de total importância na vida da artista. Tudo que aprendeu da cultura africana veio da mãe, que era parteira, rezadeira e filha de escravos. O pai era pedreiro e carpinteiro. Quando se mudaram para o Rio, a mãe trabalhou como doméstica e o pai se tornou zelador de uma escola. E Quelé, logo, começou a cantar na igreja.

Em 1926, Clementina passou a se envolver com as escolas e grupos de samba cariocas, frequentando o bloco carnavalesco Quem Fala de Nós Come Mosca, que deu origem à Portela, e depois foi diretora da Escola de Samba Unidos da Riachuelo. “Ela começou esse envolvimento quando foi morar no bairro Oswaldo Cruz, ainda na adolescência. Ela foi diretora da Unidos da Riachuelo, participou da fundação da Portela e frequentava as festas da Mangueira (onde conheceu o marido Albino Pé Grande)”, lembra Janaína. Durante esses eventos, antes mesmo de virar cantora profissional, Quelé conviveu com nomes como Cartola, Carlos Cachaça e Nelson Cavaquinho.

A carreira, que teve início em 1964, foi impulsionada por Hermínio. “Não era uma ambição dela ser artista. Ela nunca procurou isso, nunca quis ir atrás de cantar profissionalmente. Era uma pessoa que cantava nos fins de semana. Gostava do carnaval, do samba, e tudo mais. Se tornar cantora foi uma coincidência do destino”, afirma a autora Janaína Marquesini.

Ao longo da carreira gravou com nomes como Pixinguinha e Milton Nascimento, e participou de diversos espetáculos, como Rosa de Ouro, Mudando de conversa, Samba na intimidade e Samba quente. Como se iniciou tardiamente na música, precisou de ajuda ao longo da carreira, reivindicou aposentadoria ao governo do Rio de Janeiro e teve apoio de Cartola, e contou com show beneficente promovido por amigos para arrecadar dinheiro.

Antes e também depois de morrer inspirou várias cantoras brasileiras no samba. Beth Carvalho revela em Quelé, a voz da cor, que só se tornou sambista graças a Clementina. “O penúltimo capítulo do livro é todo dedicado a pós-morte de Clementina. Conversamos e pesquisamos pessoas que foram influenciadas por ela. Uma delas é Mônica Salmaso, que regravou Eu moro na roça. Tem também Paula Lima, Mariene de Castro, Leci Brandão e Teresa Cristina. Todas influenciadas por Clementina”, afirma Luana.

Duas perguntas // Luana Costa e Janaína Marquesini, autoras do livro

Qual é a importância de fazer uma biografia resgatando a história de Clementina de Jesus?
Luana Costa: 
Acho que é um resgate da nossa cultura popular. Acho que damos muita ênfase ao que toca no rádio, ao que não é nosso, de fora. Mas figuras como Clementina, que representam genuinamente o que é a construção da cultura popular, ficam deixadas de lado. É importante levantar pontos como esse, principalmente, quando se fala da cultura negra, porque há uma valorização do que é europeu. O Brasil precisa começar a valorizar a sua cultura.

A história de Clementina tinha muitos “buracos”. Como foi fazer esse trabalho de pesquisa para o livro?
Janaína Marquesini:
 Tinha pouquíssimas coisas na internet. Quase nada, na verdade. A primeira coisa que a gente conseguiu foi o contato de um documentarista do interior de São Paulo que tinha um acervo sobre ela, com imagens, entrevistas e matérias de jornais. Esse foi nosso ponto de partida. Traçamos uma cronologia e fomos descobrindo mais personagens que tiveram contato com ela. Fomos na Biblioteca Nacional do Rio, no Acervo de São Paulo.

SERVIÇO
Quelé, a voz da cor — Biografia de Clementina de Jesus
De Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz. Editora Civilização Brasileira/Grupo Editorial Record, 384 páginas. Preço médio: R$ 49,90.
Discografia
Clementina de Jesus (1966)
Gente da antiga (1968)
Fala, Mangueira! (1968)
Clementina, cadê você? (1970)
Marinheiro só (1973)
Rosa de ouro (1975)
Clementina de Jesus — Convidado especial: Carlos Cachaça (1976)
Clementina e convidados (1979)
O canto dos escravos (1982)


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