OPINIÃO - Gullar deixa grandes poemas, coisas pequenas, sujas e lindas
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OPINIÃO - Gullar deixa grandes poemas, coisas pequenas, sujas e lindas

Adriano Vizoni/Folhapress

VINICIUS TORRES FREIRE
COLUNISTA DA FOLHA

Ferreira Gullar ficava melhor quando deixava a história para entrar na vida, de que tanto gostava. Suas militâncias arranharam parte de uma obra que, no entanto, restou como uma das últimas das grandes da poesia brasileira.
Muitos dos poemas de Gullar sobreviveram à contaminação das ideias do teórico das artes que ele foi, interessante, em termos práticos, embora não muito profundo.

Sobreviveram ao comunista mais tarde arrependido, às "mensagens" contra a ditadura que o levou ao exílio; às tentativas de fazer um Brecht do camponês dos canaviais; aos poemas do Che e do Vietnã.

Gullar começou a carreira de poeta importante com um livro em que esconjurava literatices, formalismos etéreos e simbolismos, aquilo que na escola nos ensinam como "poetas da geração de 45", embora resvalasse ainda em cacoetes estetizantes dessa turma.

Era um livro de conversa com as formas tradicionais da poesia em português e também de uma procura da despoesia e de uma nova objetividade, de uma linguagem sem plumas, com uma gota talvez de João Cabral de Mello Neto e outra de Jorge de Lima.

Ali se abria o caminho que levaria ao melhor Gullar. O homem despretensioso, comum, que trata de suas solidões e lembranças em termos de pequenas coisas, de objetos cotidianos, da rua, da cama.

O que mudou da vida do menino para a do poeta que visita um lugar da infância? "...Lá embaixo/ A lama fede igual, a poça de água negra/ A mesma água o mesmo/ Urubu pousado ao lado a mesma/ Lata velha que enferruja" ("Praia do Caju").

Há pelos livros poemas coalhados de decassílabos heroicos, trechos bem versificados e dicção com um quê de nobre, mas deliciosamente misturados a talvez palavrões, frases cotidianas, "oralidade".

Gullar era um sujeito bem sabido nas formas da poesia luso-brasileira, nascido e criado sob o sol equatorial de São Luís, sua dúzia de ruas coloniais belíssimas e decadentes cercada de mocambos, lodo, urubus, frutas entre muito doces e azedadas pelo calor infernal.

Vários de seus poemas memoráveis são cantados ora em redondilhos leves, ora em em frases e palavras despedaçadas, ex-versos, espalhadas pela página, "concretistas" (só que não); mais adiante, pode ressurgir um conjunto de versos em metro tradicional. É uma composição felizmente suja.

Muito do melhor de Gullar tem memórias e lamentos de um homem sem pretensão sobre amores e saudades, recriadas com essas palavras da rua e do quarto, da conversa da cozinha da vida velha e pobre de família, manchadas pela grande história lá fora.

Essa não seria uma descrição ruim de "Poema Sujo", um texto de grande poeta marginal, por assim dizer e mal comparando.

Construção e expressão recheadas de coisas "menores"; solidão e vontade de falar de corpos de mulheres, flores, bichos e sujidades da vida: isso era Gullar. Lidar com coisas pequenas mesmo quando fazia grande história: a da sua vida misturada à de São Luís, do Brasil, da Grande Guerra, do mundo, como no "Poema Sujo". Isso era muito Gullar

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