Sobre uma Mulher! - Artigo de Joaquim Haickel.
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Sobre uma Mulher! - Artigo de Joaquim Haickel.


Era início dos anos 80 e Maria Aragão já era, fazia muito tempo, um ícone de nossa sociedade. Mulher, médica, comunista. Corajosa, disponível, aguerrida. Camarada e sincera, Maria conquistava as pessoas com seu sorriso largo, de olhinhos apertados e gargalhada solta.
Fui apresentado a ela por amigos comuns. Aldionor Salgado, Cordeiro Filho e Sergio Braga. Nessa ordem, os três me levaram até ela dizendo que eu precisava aumentar o meu currículo e conhecer a mulher mais importante do Maranhão.

Ao ser apresentado por Aldionor, ela brincou referindo-se ao meu pai, dizendo que eu era visivelmente um melhoramento genético do “caboclo do Pindaré”, mesma terra onde ela nasceu. Quando Cordeiro me apresentou a ela, naquela que seria a segunda vez a apertar-lhe a mão, agora, mais à vontade ela disse-lhe que já conhecia esse “Pão do Pindaré”. Quando Sergio Braga, todo formal e gozador, disse a ela que iria lhe apresentar um jovem “direitista” que precisava ser resgatado para as lutas populares e o melhor caminho para fazer isso seria pelas mãos de uma mulher inteligente e charmosa, ela retrucou dizendo estar à disposição e que se fosse apresentada a mim mais uma vez, iria acreditar que era coisa do destino e ia realmente me seduzir. A gargalhada foi geral.
Continuei me encontrando com Maria pela cidade e pela vida. Quem a conheceu sabe o que ela significou, não só pela sua luta social e democrática, mas pelo seu jeito de ser. Não falo isso porque é bonito falar ou por ser politicamente correto. Maria Aragão é uma das pessoas mais incríveis que eu conheci e não estou falando da ativista, que é extraordinária, falo da pessoa.
Em 1983, montei uma gráfica com o artista gráfico Paulinho Coelho, em cima do depósito de cimento de meu pai, no Desterro. Lá passou a ser o ponto de encontro do pessoal da poesia, da política, da cerveja, das “minas”...
A Gráfica Guarnicê era na verdade mais frequentada pelos meus amigos da esquerda do que pelos governistas, que nunca foram por lá.
O padre Marcus Passerine, da paróquia de São João, fazia conosco seus impressos e jornais. Até meu colega, deputado Luiz Pedro, imprimia seus panfletos conosco.
Uma vez Paulinho entrou pálido em minha sala dizendo que tínhamos um problema. Luiz tinha trazido um jornal para rodarmos e nele havia uma fotografia minha e outra de meu pai. Era alguma coisa contra o governo, ele relacionava os políticos, que, segundo sua ótica editorial, eram contra o povo. Não pensei duas vezes. Mandei pegar o trabalho. “Ora bolas Paulinho! Se nós não ficarmos com os dólares albaneses desses comunistas, eles vão levá-los para outra gráfica, meu filho! Isso é que é a tal economia de mercado contra a qual eles tanto lutam”.
Foi nesse clima que em uma manhã chuvosa de janeiro, subiu as escadas de nossa “célula”, sede da Revista Guarnicê, ninguém menos que Maria Aragão, acompanhada pelo vereador Aldionor Salgado e Mary Ferreira. Ela queria imprimir folders, panfletos e blocos de rifa, onde seria sorteada uma coleção completa dos livros de Florestan Fernandes, tudo para levantar dinheiro para os eventos do Dia Internacional da Mulher.
Ao chegar ela foi logo dizendo que o preço tinha que ser “camarada”, coisa de “companheiro”. Ela era permanentemente bem humorada.
O dito foi feito. Maria voltou para buscar o material alguns dias depois e ainda me fez comprar dois blocos da rifa. Na ocasião ela disse que se eu tivesse sorte, ganharia, e assim poderia aprender nos livros de Florestan, coisas importantes para meu trabalho político e para minha vida como cidadão.
Em março Maria entra na gráfica, acompanhada de um jovem musculoso que carregava uma caixa de papelão.
Ela foi logo dizendo que precisava me resgatar da direita e que Florestan era um bom caminho para isso. Nunca soube se realmente ganhei a rifa ou se os livros foram apenas um presente de Maria.
Anos mais tarde, em Brasília, já como constituinte, tive a honra de ser colega do grande Florestan Fernandes. Fui apresentado a ele por meu querido amigo Artur da Távola. Em certo momento de nossa conversa ele se vira pra mim e diz: “A Maria me falou de você. Espero que os livros tenham servido para alguma coisa!”.
Maria Aragão é uma dessas raras pessoas que não morrem, pois o que ela fez em vida, permanece para sempre.
Joaquim Haickel - Membro das Academias Maranhense e Imperatrizense de Letras e do IHGM

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