Cultura popular no universo virtual do Bumba meu boi Touro Vianense
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Cultura popular no universo virtual do Bumba meu boi Touro Vianense

Amo do grupo de bumba meu boi Touro Viananense, Narciso Barros e o artista visual Claudio Costa

 Em uma iniciativa inédita, grupos de bumba meu boi da baixada se unem e criam um portal, por meio do qual estreitam seus laços e instrumentalizam suas atividades

O grupo de Bumba meu boi Touro Vianense, do povoado Boisiquara, município de Viana, na região dos Lagos, na Baixada Maranhense, mantem, em seus ritmos, indumentárias e ritos, manifestações culturais tradicionais que o diferenciam, em vários aspectos, dos grandes e mais conhecidos grupos do Maranhão.

Para tentar resolver entraves que estão atrapalhando a preservação dessa identidade e para ter acesso a políticas culturais que ajudem a manter a brincadeira, o Boi Touro Vianense e outros 33 grupos dos municípios de Viana, Cajari, Matinha e Penalva estão se unindo em rede, por meio de um projeto da Fundação São Sebastião, denominado Rede Cazumba.
É um Centro de Referência Memória e Comunicação virtual, por meio do qual eles querem trocar informações, abrir canais de guarda das manifestações e ter acesso a políticas públicas e editais voltados para o setor de cultura. A proposta é inovadora. É a primeira vez que grupos de bumba meu boi se reúnem para montar uma rede virtual independente que abra espaço para incrementar as brincadeiras e ajudar a preservar a memória e as identidades dos grupos.
O projeto está em fase de elaboração, com viagens de pesquisadores da cultura popular, educadores pelos municípios da região em busca de consolidar os conteúdos. A pesquisa começou com a catalogação (localização, nome e organizadores) dos grupos. É um trabalho amplo, que vai se estender por anos para que se construa um perfil completo e detalhado de cada um dos 33 grupos, suas histórias, toadas, calendário de festas e rituais.
O trabalho é realizado por meio de projeto da Fundação São Sebastião, sediada no município de Viana, com apoio do Prêmio Redes do Brasil (categoria Local), promovido pelo Ministério da Cultura, em edital premiado em 2015. O lançamento da Rede Cazumba será no dia 20 de janeiro de 2017, em Viana. A proposta é que seja também uma fonte de pesquisa sobre os Bois da Baixada para pessoas de todo o mundo.
Os 34 grupos que vão integrar a rede têm o sotaque da Baixada. As manifestações deles estão diretamente ligadas ao cotidiano de suas comunidades de origem, localizadas nos municípios de Viana, Cajari, Matinha, Penalva e Monção, sendo algumas situadas em povoados que ainda enfrentam isolamento geográfico e virtual.
“O isolamento não vai impedir a comunicação e funcionamento da Rede Cazumba, pois, mesmo com as dificuldades de acesso a linhas de internet no interior do Maranhão, os grupos já fincaram um marco dentro da rede virtual para terem acesso quando, for possível, e para reivindicarem esse acesso das autoridades constituídas, a rede é uma saída para garantir a visibilidade e a continuidade das festas”, explica o artista visual Claudio Costa, que foi convidado pelos brincantes para participar do projeto.
Narciso Barros, amo do grupo Touro Viananense, traduz bem a satisfação com a iniciativa que cria a rede virtual. Ele acha que os grupos estão agora tendo oportunidades de gozar de mais independência e voz, o vai ajudar as brincadeiras. “O boi da região já merecia há muito tempo, uma organização para defender seu patrimônio, agora a rede vem cumprir esse papel”.
Construção do Centro
A Rede Cazumba - Centro de Referência Memória e Comunicação agrega efeitos de um trabalho que começou durante reuniões entre lideranças do bumba meu boi nas Semanas Cazumba, realizadas de 2010 a 2014, um projeto da Fundação São Sebastião com apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Comissão Maranhense do Folclore. O projeto, incentivou a construção de intervenções voltadas para a preservação da cultura popular.
Convivendo há anos com os brincantes, o artista visual Claudio Costa participa da construção do Centro de Referência Memória e Comunicação. A meta, segundo ele, é instituir estratégias que garantam a continuidade das singularidades das manifestações e proporcionar aos grupos o conhecimento necessário para, eles próprios terem acesso a mecanismos que garantam acesso a políticas públicas e editais voltado para a área de cultura.
No Centro de Referência Memória e Comunicação haverá espaço para depoimentos dos amos e demais integrantes das brincantes. Serão incluídas imagens de toadas, rituais, arte de bordados, personagens, máscaras, figurinos e adereços, instrumentos musicais. É uma página somente com fazedores de boi. Entre os espaços, os de programações, atividades realizadas, educação patrimonial, editais culturais abertos etc. “Funcionará como antena de comunicação de editais, encontros, festividades, datas de rituais, por conta de eles estarem isolados”, explicou Claudio Costa.
Singularidades
Uma das questões em debate entre os grupos envolve o isolamento de alguns grupos em povoados de difícil acesso. Pode ser que o isolamento tenha ajudado os grupos a manterem suas secularidades, mas, ao mesmo tempo, tudo indica que esse mesmo isolamento esteja ameaçando a sobrevivência dessas manifestações culturais, que estão sentindo falta de apoio para se manter e serem atrativos suficientes para chamar a atenção de novas gerações que possam garantir a continuidade das atividades.
É consenso entre os grupos que o trabalho de educativo é importante para incentivar os jovens a se envolverem com as atividades dos grupos e para preparar crianças e jovens para dar continuidade às brincadeiras. Nesta fase de preparação do Centro de Referência Memória e Comunicação, que começou em setembro deste ano, foram promovidas oficinas educativas e patrimoniais e viagens de pesquisa para criação de conteúdo.
Muitos dos debates que culminaram com a ideia de criação foram realizados por meio de outras atividades educativas promovidas pela Fundação São Sebastião e parceiros, o que inclui a realização de oficinas, palestras, treinamentos e cursos. Essa formação ajudou os grupos a terem autonomia e iniciativa de criarem a Rede Cazumba. Essas atividades incluíram a participação de pesquisadores como Jandir Gonçalves, que há anos investiga a cultura popular no interior do Maranhão


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