Jose Chagas - Sem noves fora

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Jose Chagas - Sem noves fora

Hoje é dia de...Joaquim Itapary . 15.05.2014
Já faz muito tempo que São Luís o reconhece de jornal, de revista, de livro, de boemia. E até de Política! Não raras vezes, em altas madrugadas quietas, esta cidade fantástica o ouviu deixar escorrer o macio som do seu saxofone sobre as cantarias de lioz. Desde 1948, quando aqui chegou, José Francisco das Chagas é parte intrínseca desta cidade, como se fora elemento constituinte da sua pedra fundamental e argila do último tijolo da mais recente construção. É assim como que a expressão material, visível e personificada do espírito da urbe, pois a cidade está nele em luz, oxigênio, carne e verbo. Por seu convívio com a terra e sua gente nesses 56 anos, Chagas fez-se a imagem fidedigna do mais autêntico são-luisense.
Certamente, ele decifrou o sortilégio desta cidade: Quem convive com São Luís é, automaticamente, conviva do seu povo. Digo conviver, porque, de fato, ninguém vive em São Luís. Quem chega de fora ou pratica os ritos secularmente criados e seguidos por sua gente para a convivência com a cidade e seus bichos, suas flores, suas águas, seus cheiros e falares, seus cantares, e comeres, e beberes ou estará, inapelavelmente, desentrosado, distanciado, longe dela; mesmo estando nela! Por isso é que a cidade o reconhece entre seus filhos em cada esquina, nos bancos das praças, nos cafés, senta-se com ele à mesa dos bares, na platéia dos teatros, dos cinemas, nas rodas de prosa animada, ágil, culta.
A parte mais íntima da sua alma está definitivamente transformada em letras, palavras e textos a escorrer sonoros da beira-e-bica dos telhados, mesclados aos cheiros noturnos dos becos. É natural que tenha ele muita saudade do Sítio Aroeira, lá na distante Santana dos Garrotes, nos bravios sertões da Paraíba. De vez em quando, sentado na cadeira bem ao lado da sua, na Academia, leio em seus olhos uma tristeza profunda. Há um neles um momentâneo e fugidio brilho de águas paradas de açude, um reflexo verde pálido de brotos de roçado.
Certamente, daquele roçado de lavoura azul, plantado e limpo pela enxada de quem além de seu pai foi o seu erudito mestre em assuntos da natureza. Penso que, em tais instantes de fugaz solidão em meio a tantos companheiros, no exercício de um pensamento veloz, Chagas está a dar cambalhotas no rio da meninice ou recolhendono terreiro sagrado da casa dos seus pais as vagens de feijão, as espigas de milho e de arroz, que faziam a alegria da família e dos animais de criação. Quem lê as suas crônicas e os seus poemas com atenção perceberá, de vez em quando, o fulgor de uma réstia vermelha de sol do sertão, sentirá o doce odor do úbere das cabras e o pio dos bacuraus na noite.
Dos oitenta anos que completará, na próxima semana, entre aplausos de seus conterrâneos são-luisenses, José Chagas viveu apenas vinte e quatro fora do Maranhão. Portanto, praticamente três quartos da sua existência são de vida maranhense. Até mesmo em termos de tabuada, pode-se dizer que esse nosso irmão é o mais paraibano dos escritores e poetas maranhenses. Aqui ele amadureceu e consolidou a sua personalidade. Soube dar bom proveito à excelente educação recebida em casa e obtida nas escolas.
Cidadão de conduta perfeita e ilibada teve suas qualidades cívicas e morais reconhecidas pela gente que o acolheu e o elegeu vereador da Capital. Aqui, em meio ao respeito e ao carinho de seus novos conterrâneos, Chagas cultivou e fez florescer o seu incomparável talento para a literatura. É o poeta da cidade. Ninguém o excede no canto e no descanto a São Luís. É o mestre da crônica. Tem familiaridade, intimidade com a língua portuguesa, poço profundo de símbolos do qual ele baldeia letras, espalha-as sobre o alvo chão de papel, misturadas à terra de Garrotes, amalgama tudo com seiva de Aroeira e forma as palavras para as suas necessidades da fala e da escrita.
Ai, então, diz exatamente o que quer: expõe idéias, comenta fatos, nomeia coisas, objetos, pessoas, fala da vida. Quando compõe versos e crônicas, de modo premeditado, José Chagas constrói e desconstrói o texto, palavra por palavra, letra por letra, como se quisesse fazer-nos voltar ao princípio do mundo. Com a mesma maestria que edifica um texto ele o demole. Deixa-nos atônito diante de monumentais escombros de palavras. E, de novo, refaz o desfeito, como um ilusionista verbal. Repõe tudo em seus devidos lugares: só que em outros que não os de antes.
Suas frases são hábil e meticuloso artesanato de palavras. Tanto podem começar pelo princípio, pelo fim ou pelo meio. Um jogo de elementos sonoros e silentes, de luz e sombra, de raio e trovão, de côncavo e convexo, de avesso e direito. Igual a cobra serpenteando nos fazimentos e nos desfazimentos de suas ininterruptas ondulações sucessivas. Vai e volta sem sair do lugar. Anda sem ir e desanda sem voltar. Um mestre da prosa e do verso. O dono das letras. O domador de palavras.
Se Deus o tivesse a Seu lado quando da criação do mundo certamente ter-lhe-ia pedido: José, meu filho, vai dando nome àquilo que eu for criando. E Deus aprovaria. Porque tudo o que ele faz é bom. Não tem noves fora. É a esse cantor da cidade, sem igual; é a esse cronista da vida, sem par; é a esse irmão de nossa gente, sem reservas; é a esse cidadão afável, leal, correto e puro que o Maranhão abraça nestas vésperas dos seus oitenta anos, durante os quais ele glorificou a terra que o recebeu, o ama e quer bem.
Viva Chagas!
(21/10/2004)

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